
A emoção tomou conta da cerimónia fúnebre de Conceição Lima, considerada uma das figuras mais influentes da literatura e do pensamento santomense contemporâneo. Entre lágrimas, aplausos silenciosos e palavras de reconhecimento, familiares, amigos, jornalistas, escritores e representantes da sociedade civil despediram-se daquela que muitos classificam como “a voz da consciência nacional”.
Durante a homenagem, foi recordado o percurso da escritora enquanto jornalista, poetisa e defensora da cultura santomense. O discurso principal destacou a coragem intelectual e a firmeza de caráter da autora, sublinhando que Conceição Lima “pertenceu à consciência crítica da nossa nação” e foi “uma voz livre num mundo tantas vezes dominado pelo silêncio, pelo medo e pela conveniência”.

Enquanto jornalista, Conceição Lima foi reconhecida pelo rigor, ética e independência. Já na literatura, a sua poesia transformou-se numa referência internacional da identidade santomense e africana, levando o nome de São Tomé e Príncipe além-fronteiras.
DISCURSO
“Enquanto poetisa, transformou emoções em eternidade. Enquanto escritora, ajudou-nos a compreender melhor a nossa identidade, as nossas feridas ainda por sarar, os nossos sonhos e as nossas contradições enquanto povo.”

O momento mais marcante da cerimónia surgiu quando foi revelado que a própria escritora teria escolhido, ainda em vida, quem faria o único discurso político autorizado nas suas exéquias fúnebres. Um gesto interpretado como sinal de confiança pessoal e respeito mútuo.
No discurso, houve também críticas à forma como a intelectual foi tratada em determinados momentos da sua trajetória no país. Foi referido que, apesar do reconhecimento internacional, Conceição Lima terá sido “ignorada, marginalizada e perseguida” durante o exercício de algumas funções públicas.
Ainda assim, os testemunhos apresentados descreveram uma mulher simples, humana, solidária e profundamente ligada às causas culturais e sociais do arquipélago.
DISCURSO
“Era uma dessas pessoas raras cuja inteligência nunca esmagava a humildade. Pelo contrário, quanto maior o seu saber, maior parecia ser a sua simplicidade humana.”
A cerimónia terminou com uma homenagem poética profundamente emotiva, evocando lugares históricos e símbolos identitários de São Tomé, numa despedida marcada pela força da memória e da cultura.
– HOMENAGEM POÉTICA
“A poesia não morre quando o poeta se cala, fica suspensa no ar como o cheiro do barro molhado.”

A morte de Conceição Lima representa uma perda irreparável para a cultura santomense. Mas entre poemas, livros e memórias, permanece viva a herança de uma mulher que transformou palavras em identidade nacional e fez da literatura uma ponte entre São Tomé e o mundo.