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Em declarações marcadas por fortes críticas ao tratamento dado ao processo judicial do chamado caso 25 de Novembro, Delfim Neves afirmou que o posicionamento agora tornado público pelo Ministério Público já era esperado, uma vez que, segundo disse, nunca chegou a ser formalmente acusado durante a fase de instrução preparatória.



“Era minha convicção, porque nunca me reuni com ninguém para tratar de um assunto dessa natureza. Quem me conhece sabe que eu não faço política com mãos sujas de sangue.”


O ex-presidente do parlamento explicou que decidiu solicitar uma certidão ao Ministério Público para dissipar dúvidas que, segundo afirma, continuavam a ser alimentadas em círculos políticos e partidários sobre um eventual envolvimento seu na alegada tentativa de subversão da ordem constitucional.



Apesar de considerar importante o esclarecimento público, Delfim Neves sublinha que continua profundamente marcado pelos acontecimentos de 25 de Novembro, sobretudo pela morte de quatro cidadãos no quartel do Morro, episódio que classificou como um dos mais graves da história recente do país.



“Foram quatro vidas ceifadas no quartel do Morro. O país ficou dividido socialmente, familiarmente e até ao nível das amizades. A única forma de a sociedade se reencontrar é haver julgamento.”


Durante a entrevista, o político insistiu na necessidade de o processo sair definitivamente da esfera militar e avançar para os tribunais civis, defendendo que só um julgamento público poderá esclarecer toda a verdade sobre os acontecimentos.



“As pessoas não podem ter medo do julgamento. Julgamento não é condenação antecipada. É uma forma de clarificar a verdade.”



Delfim Neves voltou igualmente a questionar a legalidade da sua detenção, recordando que, na altura dos factos, exercia funções de deputado e beneficiava de imunidade parlamentar.


Segundo explicou, a sua captura ocorreu de forma “brutal” na residência familiar, por elementos militares que, na sua perspetiva, não tinham competência legal para efetuar a detenção.



“Como deputado em efetividade de funções, caberia ao Ministério Público solicitar autorização da Assembleia Nacional antes de qualquer procedimento.”


O antigo líder parlamentar lamentou ainda o silêncio institucional da Assembleia Nacional sobre o seu caso, acusando a então liderança do parlamento de ignorar os pedidos de debate em torno dos acontecimentos de 25 de Novembro.



Ao longo da entrevista, Delfim Neves reiterou que o Estado são-tomense deve ser responsabilizado pelos danos causados às vítimas e aos cidadãos envolvidos no processo.


“O Estado deve ser responsabilizado por tudo quanto aconteceu. Não estou a falar de pessoas individuais, mas de um processo que, na minha perspetiva, foi montado para ceifar vidas.”


O político contestou também as acusações que o apontavam como alegado financiador da tentativa golpista, considerando contraditórias as versões apresentadas ao longo da investigação.


“Dizem que o golpe estava preparado desde 2021. Então seria contra quem? Contra mim próprio? Isso é absurdo.”


No final da entrevista, Delfim Neves apelou à reposição da verdade também no espaço digital, afirmando que o seu nome continua associado ao caso em plataformas internacionais de pesquisa e informação.

“Espero que esta certidão também sirva para corrigir informações falsas que continuam a circular sobre a minha pessoa.”


O processo relacionado com os acontecimentos de 25 de Novembro continua sem data oficial para julgamento, enquanto persistem debates políticos e jurídicos sobre a responsabilização criminal e institucional dos envolvidos no caso que abalou São Tomé e Príncipe.



POR: EDENEL ABREU